Vinil Raul Seixas - A Pedra do Gênesis (1988 / LP Fumê Translúcido Esfumaçado)
RAUL SEIXAS – A PEDRA DO GÊNESIS (1988)
Em 1988, Raul Seixas estava bastante esquecido quando gravou seu último álbum solo. Era o LP “A pedra do gênesis”, lançado pela extinta Copacabana Discos, incorporada à Universal Music, que o relança agora em seu formato original. Embora não tenha produzido nenhum sucesso à época, esse álbum juntamente como toda a obra do roqueiro passou a ser cultuados e melhor decifrados logo após a sua morte, ocorrida no ano seguinte ao lançamento desse disco. Parece ter caído a ficha para uma massa roqueira de jovens que jamais houve na história do país um artista masculino do rock com tamanha originalidade, consciência crítica, atrevimento e irreverência, ingredientes fundamentais à gênese do rock, mas bastante incomuns a partir da década de 1980, quando o capitalismo e a cultura midiática se apropriaram do estilo, transformando-o em produto pronto para o consumo, esvaziando bastante seu potencial subversivo.
No caso de Raul Seixas, há de se acrescentar também um gosto extra pelo misticismo e alquimias diversas, incluindo livros sagrados e referências atávicas. Que o diga o título deste álbum, “A pedra do gênesis”, apelido de uma rocha formada há cerca de quatro bilhões de anos, recolhida por astronautas em 1971 durante a missão Apollo 15, que remonta aos estágios iniciais de formação da crosta lunar e do nosso Sistema Solar. Na faixa-título, já na abertura, ele a defende como a essência da vida, de Deus e do cotidiano, mas não como um segredo místico inalcançável, mas algo presente no caminho de qualquer pessoa comum.
O álbum segue com “A lei”, que atualiza os mandamentos de sua “Sociedade alternativa”. Depois, o country “Check-up” nada mais é que “Bruxa amarela”, gravada por Rita Lee & Tutti Frutti em 1976, com pequenas alterações na letra. Na mesma levada, a divertida “Fazendo o que o diabo gosta” narra um relacionamento sem regras religiosas, mas que “agrada a Deus, fazendo o que o diabo gosta”: “Casamos no motel bem longe do altar/Lua de mercúrio, fogo e mel”. “Cavalos calados” parece ser uma alegoria sobre sua própria morte. “Não quero mais andar na contramão (No no song)” é uma versão gaiata do sucesso de Ringo Starr. Seguem um country autoral em inglês, “I don’t really need you anymore”; a surpreendente regravação do clássico “Lua bonita”, do cantor, compositor e escritor paraibano Zé do Norte, originalmente registrado em 1953; “Senhora Dona Persona”, um “pesadelo mitológico” e, por fim, a algo autobiográfica “Areia da ampulheta”, em que (se) descreve um “cachaceiro mal amado/O triste-alegre adestrado”, “O boi diário servido em pratos/O pivete encurralado”. Definições um tanto fidedignas do nosso Rei do Rock.
Repertório do LP:
LADO A:
1. A pedra do Gênesis (Raul Seixas/Lena Coutinho)
2. A lei (Raul Seixas)
3. Check-up (Raul Seixas)
4. Fazendo o que o diabo gosta (Raul Seixas/Lea Coutinho)
5. Cavalos calados (Raul Seixas)
LADO B:
1. Não quero mais andar na contramão (No no song) (Hoyt Axton/David P. Jackson – versão: Raul Seixas e Lena Coutinho)
2. I don’t really need you anymore (Raul Seixas/Carlos Roberto)
3. Lua bonita (Zé do Norte/Zé Martins)
4. Senhora Dona Persona (Pesadelo mitológico número 3) (Raul Seixas/Lena Coutinho)
5. Areia da ampulheta (Raul Seixas)