Vinil Belchior - Elogio da Loucura (1988 / LP Fumê Translúcido Esfumaçado)
O álbum “Elogio da Loucura”, de Belchior, é relançado pela Universal Music Brasil
Ao lançar seu 11º álbum, “Elogio da loucura”, em 1988, Belchior estava animado, saindo de uma temporada vitoriosa no tradicional Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, com lotação esgotada. “É um trabalho que eu acredito ter uma coerência singular, com os meus temas de sempre, aquela coisa de conflito de poderes, do cidadão comum contra o cotidiano da cidade, da luta do imigrante na cidade grande. Além disso, estou completando vinte anos de atividades e no disco novo vou tentar contar o que aconteceu com essa geração. Me sinto maduro para tratar disso”, declarou na ocasião. “Acho que a arte tem de ser contestatória e minha função é criar insônia, não música para dormir”, continuava.
Assim sendo, sobravam críticas ao consumismo desenfreado, esvaziando o idealismo da virada dos anos 1960 para os 1970. “Os profissionais” é uma das mais contundentes. Em paródico ritmo de rancheira, parecia conversar com o rock “Ideologia”, de Frejat e Cazuza, lançada naquele mesmo ano (“Onde anda o tipo afoito/ Que em 1-9-6-8 queria tomar o poder?/ Hoje rei da vaselina/ Correu de carrão para China/ Só toma mesmo aspirina/ E não quer nem saber”). “Recitanda” emulava versos de seu clássico “Como nossos pais” para cutucar a mesma ferida. “Balada de Madame Frigidaire” destilava ironia, mostrando um homem apaixonado por sua geladeira. “No maior jazz” criticava a estupidez da política mundial enquanto “Kitch metropolitanus” usava o ritmo refrescante do reggae para expor a juventude de então, a seu ver, um tanto “clonada”. Para encerrar, em “Arte final”, questionava: “A saída será mesmo o aeroporto?”.
Este LP, que a Universal Music Brasil relança agora, foi produzido por Antonio Foguete e emoldurava o discurso afiado de Belchior com arranjos mais eletrônicos, típicos do final dos anos 1980. Num mix de referências que iam de Rolling Stones a Bob Dylan, de Freud a Martin Luther King, ainda se dava ao luxo de se apropriar dos títulos de dois livros clássicos do século XIX para compor canções em parceria com o conterrâneo Francisco Casaverde: um do nosso poeta Álvares de Azevedo, a antologia “Lira dos vinte anos” (1853) – mais uma feita para criticar o conformismo social de então – e outro do português Camilo Castelo Branco, “Amor de perdição”, um clássico do romantismo luso (1862) – sendo a única faixa romântica do LP. Em resumo, este álbum “Elogio da loucura” antecipava em quase 40 anos a verdadeira distopia que explodiu no mundo contemporâneo. Saiba mais aqui: https://www.umusicstore.com/belchior .
Rodrigo Faour Julho de 2026
Repertório de “Elogio da Loucura” – Belchior:
LADO A:
1 - Amor de perdição (Belchior/ Francisco Casaverde)
2 - Elegia obscena (Belchior)
3 - Balada de Madame Frigidaire (Belchior)
4 - No maior jazz (Belchior/Gracco)
5 - Recitanda (Belchior/Gracco)
LADO B:
1 - Lira dos vinte anos (Belchior/Francisco Casaverde)
2 - Os profissionais (Belchior)
3 - Kitsch metropolitanus (Belchior/Jorge Mello)
4 - Tambor tantã (Belchior/Graccp)
5 - Arte final (Belchior/Gracco/Jorge Mello)